
Casa Rocha Pombo, em Morretes, está em estado de ruínas. 30/10/2005.
Texto e Fotos: Mathieu Bertrand Struck.
CC 2.0 BY-NC-ND
No processo de colonização do litoral paranaense, destaca-se a cidade de Morretes, cuja fundação remonta a aproximadamente 1720. Muito embora a pequena cidade, localizada no sopé da Serra do Marumby, já tenha tido sua arquitetura original bastante degenerada, remanescem algumas construções dignas de nota.
Uma dessas construções é a Casa Rocha Pombo, que homenageia um dos mais importantes historiadores brasileiros, nascido naquela cidade. Um rápido histórico a seu respeito pode ser lido aqui.
Na Casa costumava funcionar a secretaria de cultura da cidade, mas desde um incêndio, ocorrido há alguns anos, não se usou mais o imóvel.
Em sua parte externa, a casa já não se encontra em boas condições. Os jardins estão abandonados e a maquete (1:5000) da Serra do Marumby encontra-se em estado deplorável, toda lavada pela chuva e sem qualquer identificação dos picos retratados.
Encontramos as portas da casa escancaradas e o interior completamente escuro. Não havia ninguém. Experimentamos alguns interruptores, alguns funcionavam, outros não. Na maioria dos cômodos e salões, não havia nenhum sinal de mobília, quadros ou adereços. A madeira do forro e do telhado, em muitos pontos, está em estado de podridão generalizada, com plantas trepadeiras avançando sobre as paredes.
Na sala principal, uma montanha considerável de livros (certamente da antiga biblioteca da Casa) estava amontoada em um dos cantos. O estado era igualmente deplorável, diversas pilhas de livros estavam sendo devoradas por fungos e cupins. E embora tivesse muita tranqueira, havia algumas coisas muito boas (p. ex. uma bela Enciclopédia Brasileira de 1870 +ou- e um Tratado de Paleontologia Brasileira da década de 20, além da rara coleção sobre a História da Cia. de Jesus no Brasil, em uma dezena de volumes – tudo já mofado e úmido). Se as chuvas continuarem, certamente esses livros – a julgar pelo seu estado atual – não estarão inteiros na virada do ano.
Outro dado a ser investigado é que vimos uma loja de ferragens e velharias (não muito longe dali – aliás, nada longe dali) vendendo livros estranhamente similares aos que estavam amontoados na Casa (pode ser coincidência, evidentemente). Isso pode revelar um ou mais possíveis saques locais í biblioteca pelos locais. O fato é que dois estranhos na cidade (nós) encontraram as portas da casa abertas (indicando claramente abandono) e nela ficaram sozinhos por 45 minutos, aproximadamente. Poderíamos ter levado os livros que quiséssemos. Se a Casa fica permanentemente escancarada, ajuda muito.
Em frente, uma feira local vendia artesanato aos turistas (mais de 50% dos itens vêm da Bahia e de outros estados do Nordeste e praticamente não há artesanato local – outro dado digno de nota). Ninguém viu nada? Difícil.
Residentes e comerciantes próximos sustentam que, desde o incêndio parcial da Casa, não houve qualquer moção por parte das autoridades municipais no sentido de promover uma reforma ou – no mínimo – estancar o processo de devastação, pilhagem e degradação. Mais de um deles alegou ser fato notório a liberação de vastos recursos pela Petrobrás í Prefeitura de Morretes (como compensação financeira por um vazamento de óleo ocorrido recentemente na região litorânea) e o seu “mágico” desaparecimento, na burocracia morretense. Ninguém sabe, ninguém viu. A grana, ao que tudo indica, foi liberada. (Os moradores informaram que a administração atual é do PMDB – a informação não foi verificada).
As fotos abaixo (espero que não sejam muitas) demonstram a necessidade de providências urgentes. Trata-se de patrimônio cultural do estado, tombado em 1973 e que está, rapidamente, se transformando em mais uma ruína. O populacho local não parece muito interessad0 no problema e – pior – parece até ter encontrado formas de se beneficiar dele. Embora não tenhamos sido incomodados durante nossa permanência no local, vimos mais de uma vez vendedores da feira local pegarem os raros itens de mobiliário (cadeiras, banquinhos, mesinha) para se acomodarem em suas barraquinhas. Se colocam de volta depois do uso (ou levam para suas casas para assistir o Faustão), não sei.
Do ponto de vista arquitetônico, a Casa Rocha Pombo é até simples e nem muito antiga (segunda metade do Séc. XIX e já passou por diversas intervenções posteriores). Mas a arquitetura das cidades litorâneas do Estado já foi por demais descaracterizada e acredito ser esta uma decorrência direta da inépcia, incapacidade de organização e permissividade dos residentes locais para com a destruição de seu ambiente urbano. Obs. o predinho com sacadas ao lado da Igreja de Antonina é um exemplo claríssimo (vou procurar a foto e postar em seguida).
Momento Paraná em Páginas í parte, parece-me um alerta digno a ser dado, no sentido de preservar o pouco que ainda resta do passado do litoral paranaense.

Frontispício da Casa Rocha Pombo, em Morretes-PR, Outubro de 2005.

Porta de entrada. à direita, um pé de comigo-ninguém-pode alerta o visitante mal-intencionado.

Bicicletas de feirantes estacionadas na Casa.

Mais bicicletas, porta lateral e um pé de espada-de-são-jorge(í dir.), outra planta de forte conteúdo simbólico. O que pretendiam os antigos ocupantes da Casa afastar?



Parte incendiada do teto da Casa.

Rocha-Pombo-Hera


Antigos lustres da Casa, amontoados em uma de suas salas.

Conjunção astral nos vidros da Casa Rocha Pombo, 2005.

Montoeira de livros rumo í destruição.



Maquete da Serra do Marumby.
Num grupo de turistas franceses que estava passeando ao mesmo tempo pelos jardins abandonados da Casa, ouvi a seguinte pergunta: “Isso é um mapa do Brasil? Onde está o Oceano Pacífico?”
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Outro Olhar:

Legenda: “Casa Rocha Pombo. Homenagem de Morretes ao seu grande filho, famoso historiador e político”.
Foto de Carlos Renato Fernandes, in O Paraná, Edipan, 1991