Em nossa “modernidade líquida”, como o senhor a chama, as identidades fixas se tornam cada vez mais irreais e inoperantes. No entanto, “ter uma identidade” se tornou, no mundo de hoje, uma verdadeira obsessão.
De fato, dadas as condições líquidas do mundo moderno, ter uma identidade fixa se tornou um projeto sinistro e, mais que isso, uma terrível ameaça. Veja a grande contradição em que estamos confinados! “Ter uma identidade” significa estar claramente definido, inclui continuidade e consistência. Mas, ao mesmo tempo, nas condições fluidas do mundo de hoje, almejar continuidade e consistência se tornou uma estratégia suicida e fracassada.
A idéia de identidade ganhou importância no momento em que tanto a noção de individualidade como a de coletividade começaram a falhar. Mas a idéia de identidade carrega, em si, um paradoxo, porque ela tanto aponta para o desejo de uma emancipação individual, como para o de integração a um grupo. Logo, a busca da identidade se dá sempre em duas direções. É uma busca que se faz sempre sob fogo cruzado e sob a pressão de duas forças contraditórias. É uma luta que se torna vã, já que leva os que a travam a navegar entre dois extremos inconciliáveis: o da individualidade absoluta, e o da entrega absoluta. A individualidade absoluta é inatingível. Enquanto a entrega absoluta faz desaparecer todo aquele que dela se aproxima.
Por esse motivo, a busca da identidade gera perigos potencialmente mortais, tanto para a individualidade, como para a coletividade, embora ambas apelem para ela como uma arma de auto-afirmação. A estrada para a identidade é uma rota de batalhas intermináveis entre o desejo de liberdade e o desejo de segurança, caminho, ainda por cima, assombrado pelo medo da solidão e o pavor da impotência. Por esse motivo, a “guerra pela identidade” é sempre sem conclusão e é, provavelmente, uma guerra sem vencedores, embora a “causa da identidade” possa continuar a ser ostentada.




























